O sofrimento é o intervalo entre duas felicidades 

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Todo ser humano que se presta a viver há de padecer, cedo ou tarde, das imprevisibilidades da vida. A estrada entorta, o leite derrama, o amor esfria ou amarga feito café de ontem. A gente erra, perde, desacerta o passo. É traído pela sorte, toma rasteira, apanha do imprevisto feito condenado. Os planos sofrem fraturas expostas no caminho da estrada real, e nós, momentaneamente privados do prazer, largamos de seguir alegres e contentes no trilho descarrilhado de nossa miserável ilusão.

Nada é capaz de predizer a fatalidade. Nem mapas, previsões astrológicas, signos, zodíacos ou quiromancias — todas essas coisas, uma hora ou sempre vão se enganar. Esse é o momento exato em que a vida nos convoca a dar um passeio forçosamente de mãos dadas com o sofrimento. E dói, como dói a privação da alegria. Acampamos em ruínas, porém, despertos ainda em viver, seguimos catando nossas partes vivas no chão. Sofrer é tentar juntar os restos desordenados, é ir se arrastando miúdo em direção a alguma apreensão de si. Tem dias em que é inevitável sofrer e o que nos resta mesmo é ser humano, nada mais! É preciso dar passagem ao choro, ao grito, ao silêncio — qualquer coisa que sinta, qualquer coisa apta a confirmar que até agora estamos vivos. No entanto, o sofrimento é uma agitação que desordena, para justamente ordenar e construir o seguinte.


Ao sofrer trilhamos caminhos, como quem desbrava o mato alto com uma foice na mão. Abrindo passagem para que a próxima caminhada seja mais digna. O sofrimento (só ele) abre a gente desse jeito, deflagra nossa compreensão interior. Nos coloca em solidão, ao passo que também nos arrasta cada vez mais, para bem perto de nossos potenciais de solucionar as tormentas. Na verdade é uma oportuna passagem, hábil a nos harmonizar intimamente, depois que o furacão se acalma. Sofrer é o sentimento que mais nos coloca perto das transmutações que fazemos na vida. É ele quem lava nossos olhos, para enfim, enxergar a alegria. Sempre acreditei que o sofrimento e a alegria são como grandes amigos, é que um dá sentido para o outro começar a existir. A alegria é a tristeza esquecida de ser triste, enquanto a tristeza é a alegria esquecida de alegrar-se.


No momento em que sofremos não fazemos a menor ideia de que algo novo após aquele instante nascerá. A flor cai, mas deixa o cheiro de frescor nitidamente no espaço. É a certeza de que o novo quer nascer. A existência nos faz esse pedido, vez em quando. Encerra um ciclo, abre-se outro universo. Muito aprendeu aquele que bem conheceu o sofrimento, pois a força não se mensura por fragilizar-se, mas pela medida de nossa capacidade de transmutar.


Sofrer é uma passagem que pode nos levar a reconhecer que, por detrás da neblina, abre-se uma luz quentinha, capaz de abrasar o coração cansado, dorido. Alguma força acontece no nosso olhar, a nos garantir que é melhor seguir as estrelas do que estacionar o tempo em incompreensões. Agora vem. Erga-se devagar — com todos os ais — mas vem. Se olhar pela janela dos sentidos, vai perceber quantos sois ainda hão de nascer pra te encontrar. – Ruth Borges 

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