Arquivo da categoria: Ann Druyan

O que me fascina sobre Carl Sagan.

Sagan foi um grande cientista, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano; autor de mais de 600 publicações cientificas e 20 livros de ciência e ficção científica.

Defensor do ceticismo,  o ceticismo é um estado de quem duvida de tudo, de quem é descrente. Um indivíduo cético caracteriza-se por ter predisposição constante para a dúvida, para a incredulidade.  É um sistema filosófico fundado pelo filósofo grego Pirro (318 a.C.-272 a.C.), que tem por base a afirmação de que o homem não tem capacidade de atingir a certeza absoluta sobre uma verdade ou conhecimento específico.

Assim como Sagan o cético questiona tudo o que lhe é apresentado como verdade e não admite a existência de dogmas, fenômenos religiosos ou metafísicos.

Por essas e outras características que fui tomada pela vontade de começar a questionar a vida e tudo o que nela existe, e me tornei uma grande fã de Carl Sagan e pela forma como ele via a vida, os seres humanos e tudo o mais.

Sagan é conhecido por seus livros de divulgação científica e pela premiada série televisiva de 1980 Cosmos: Uma Viagem Pessoal, que ele mesmo narrou e co-escreveu.

Carl Sagan nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, em uma família de judeus ucranianos. Seu pai, Sam Sagan, era um operário da indústria têxtil nascido em Kamenets-Podolsk, Ucrânia. Sua mãe, Rachel Molly Gruber, era uma dona de casa de Nova Iorque. Ele tinha também uma irmã, Carol que ambos concordavam que seu pai não era especialmente religioso, porém sua mãe “definitivamente acreditava em Deus.

A  personalidade de Sagan foi o resultado de suas estreitas relações com ambos os pais, que eram às vezes opostos um do outro.

Sua mãe teria sido uma mulher que cresceu em meio a extrema pobreza enquanto criança, e sem-teto em meio a cidade de Nova Iorque durante a Grande Guerra e a década de 20.  Ela tinha também suas próprias ambições intelectuais quando era jovem, mas estes sonhos foram bloqueados por restrições sociais, principalmente por causa de sua pobreza, e por ter se tornado mãe e esposa, além de sua etnia judaica. O biografo Davidson observa que ela, portanto, “adorava seu único filho, Carl. Ele iria realizar seus sonhos não realizados”.

Seu “sentimento de admiração” veio de seu pai, que quieto e sorrateiramente escapou do Czar. Em seu tempo livre, este dava maçãs aos pobres, ou ajudava a suavizar as tensões entre patrões e operários na tumultuada indústria têxtil de Nova Iorque. Ainda que intimidado pelo brilhantismo de Carl, por suas infantis perguntas sobre estrelas e dinossauros, Sam ajudou a transformar a curiosidade de seu filho em parte de sua educação. Em seus últimos anos como cientista e escritor, Sagan frequentemente desenhava sobre suas memórias de infância para ilustrar questões científicas, como fez em seu livro ”Sombras dos Antepassados Esquecidos” , ele  descreve a influência dos seus pais em seu pensamento:

”Meus pais não eram cientistas. Eles não sabiam quase nada sobre ciência. Mas ao me introduzirem simultaneamente ao ceticismo e ao saber, ensinaram-me os dois modos de pensamento coexistentes e essenciais para o método científico.”

No seu livro ” O mundo assombrado pelos Demônios”, Sagan recorda de quando em 1939 foi levado pelos seus pais na 1939 world’s fair ( feira mundial de 1939), em Nova Iorque, ele viu uma exposição chamada  “America of Tomorrow” (América do Amanhã): O mapa continha belas estradas e alguns poucos carros da General Motors, todas as pessoas caminhando, e ao fundo vários arranha-céus, edifícios lindos, segundo ele, aquele momento estava ótimo! Em outras exposições, lembrou de ter visto uma lanterna brilhar em uma célula fotoelétrica. Ele também testemunhou a tecnologia do futuro da mídia que iria substituir o rádio: A televisão! Sagan escreveu:

Claramente, o homem realizou maravilhas de um modo que eu nunca tinha imaginado. Como poderia um tom tornar-se uma imagem e luz tornar-se um ruído?

Ele também conta que viu um dos eventos mais divulgados da feira, o enterro de uma cápsula do tempo em Flushing Meadows, que continha algumas lembranças da década de 1930 para serem recuperadas por descendentes dos humanos em um futuro milênio. “As cápsulas do tempo sempre excitaram Carl” escreve o biógrafo Keay Davidson. Quando adulto, Sagan e seus colegas criaram algumas cápsulas do tempo similares, mas estas foram enviadas para o espaço. Estas cápsulas citadas são a placa Pioneer e o Voyager Golden Record, que foram produto da experiência de Sagan na exposição.

Quando iniciou o ensino fundamental, Sagan começou a manifestar sua curiosidade pela natureza.  Sagan recorda-se de suas primeiras viagens para a biblioteca pública, sozinho, com a idade de cinco anos, quando sua mãe arranjou-lhe um cartão da biblioteca. Ele queria aprender o que eram as estrelas, já que nenhum de seus amigos ou até mesmo seus pais não sabiam lhe dar uma resposta clara:

“Fui para o bibliotecário e pedi um livro sobre as estrelas… E a resposta foi impressionante. A resposta era que o Sol também era uma estrela, só que muito próxima. Logo, as estrelas eram outros sóis, mas estavam tão distantes que eram apenas pequenos pontos de luz para nós… A escala do universo de repente se abriu para mim. Era um tipo de experiência religiosa. Houve uma magnificência para ela, uma grandeza, uma escala que nunca me deixou. Nunca me deixará…”

Aos 6 ou 7 anos de idade ele e um amigo viajaram para o Museu Americano de História Natural, na cidade de Nova York. Enquanto estavam por lá, eles foram ao Planetário Hayden e andaram na exposição sobre objetos do espaço, como os meteoritos, e também foram às exposições de dinossauros e outros animais em seus ambientes naturais. Ele escreveu sobre estas exposições:

“Eu era fascinado por representações realistas de animais e seus habitats em todo o mundo. Pinguins no gelo antártico mal iluminado; uma família de gorilas, com o macho tamborilando no peito; um urso-cinzento americano de pé em suas patas traseiras, com seus dez ou doze pés de altura, fitando-me direto no olho.”

Sagan escreve : “O primeiro pecado da humanidade foi a fé; a primeira virtude foi a dúvida.” 

E é isso o que mais me admira, sua inquietante vontade de questionar tudo o que existe.

Sagan Morreu aos 62 anos, Seattle, 20 de dezembro de 1996 de pneumonia, depois de uma batalha de dois anos com uma rara e grave doença na medula óssea. 

Carl Sagan foi muito mais do que um mero mortal, foi um grande homem que com uma grande sabedoria foi capaz de questionar, estudar e ensinar para aqueles que quisessem aprender além do que estava escrito nos livros sagrados e nas apostilas das escolas. Para ele o universo era um mistério que ansiava por ser descoberto e as superstições eram obstáculos criados para interromper a evolução e o progresso humano. Ele escreve que nós seres humanos somos uma espécie rara por estarmos vivos e porque podemos pensar dentro de nossas possibilidades. Segundo Carl, temos o privilégio de influenciar e talvez controlar o nosso futuro.  Ele acredita que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra – não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós.

” Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pêlos humanos e podem ser resolvidos pêlos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante. ” 

Graças ao trabalho de Carl, acredito que hoje o mundo caminha ao rumo da paz que tanto esperamos e queremos, novos horizontes nos foi apresentado por ele, horizontes esses que podemos alcançar.  Graças a ele é que podemos humildemente ver e entender nossa posição e insignificância perante à esse infinito e gigantesco Universo.

Ele acredita que nós somos capazes de tudo, até de fazer magia: UM LIVRO É A PROVA DE QUE OS SERES HUMANOS SÃO CAPAZES FAZER MAGIA.

“Que coisa espantosa é um livro. É um objeto achatado feito a partir de uma árvore, com partes flexíveis em que são impressos montes de rabiscos escuros engraçados. Mas basta um olhar para ele e você está dentro da mente de outra pessoa, talvez alguém morto há milhares de anos. Através dos milênios, um autor está falando claramente e em silêncio dentro de sua cabeça, diretamente para você. A escrita é talvez a maior das invenções humanas, unindo pessoas que nunca se conheceram, cidadãos de épocas distantes. Livros rompem as amarras do tempo. Um livro é a prova de que os seres humanos são capazes de fazer magia.”

— No episódio ”A Persistência da Memória”, décimo primeiro da série Cosmos: A Personal Voyage em 1980.

O que escrevi neste post sobre Carl é pouco perto do que ele foi e representa para mim. Fico feliz de compartilhar isso com meus leitores e compartilhar um pouco da pessoa que me inspira todos os dias, e a pessoa que me leva a acreditar em nós seres humanos mesmo quando pareça impossível.

”Durante toda a sua vida, estudara o universo, mas desprezara sua mais clara mensagem: para criaturas tão pequenas como nós, a vastidão só é suportável através do amor.” — No livro Contato, de 1985.

Karen Padilha 

O Que Realmente Importa?

O que realmente importa, na nossa vida presente. 

Eu venho buscando conhecimento em diferentes áreas, hoje mesmo terminei um curso de Introdução a Psicologia, pela Universidade de Toronto, foi um dos cursos On-line que fiz e é aplicado pelo site Coursera. Terminei um outro também que é ” Origens da Vida no Contexto Cósmico”, que é dado pela USP ( Universidade de São Paulo). Entre outros que comecei, outros que terminei. Todavia, parei agora para pensar o que eu aprendi nesses cursos que são excelentes e você tem o certificado de conclusão ( se pagar), aprendi o que é Filosofia, parte da Psicologia, aprendi a história do Universo, e em que eu acredito. 

Mas, tem um porém, todos esses cursos me levaram ao mesmo ponto, a mesma pergunta, o que realmente importa? Digo agora, no presente , na sociedade em que vivemos, o que é que realmente importa? São tantas informações, que, de agora eu não consigo responder a essas minha pergunta.

Somos seres humanos, somos uma espécie rara, e somos sortudos de viver nesse tempo, o primeiro na historia humana aonde podemos de fato ver e especular sobre outros planetas, e se diga de passagem, se não nos autodestruirmos quem sabe um dia poderemos nos aventurar pelos outros planetas, pelas estrelas, conhecer o desconhecido que tanto procuramos. Somos raros porque estamos vivos, e temos o poder de influenciar e talvez até controlar o nosso futuro.

” Acredito que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra – não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós.  Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pêlos humanos e podem ser  resolvidos pêlos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante. ” Carl Sagan

Será essa a resposta à minha pergunta? O que realmente importa?

Por sermos uma espécie rara, temos o dever de cuidar do nosso planeta?

Mas como fazer isso se nações armam guerras contra outras nações? “Eles armam ciladas contra o seu próprio sangue”. Provérbios 1:18, 

Acredito que em algum ponto entre os bobalhões alegres e os pessimistas nervosos, há um estado de espírito que devemos adotar. À exceção dos milenaristas de várias seitas e dos tabloides, o único grupo de pessoas que parece se preocupar rotineiramente com as novas previsões de desastres – catástrofes ainda não vistas em toda a história escrita de nossa espécie – são os cientistas. Eles chegam a compreender como é o mundo, e ocorre-lhes que ele poderia ser diferente. Um pequeno empurrão aqui, um pequeno puxão ali, e grandes mudanças poderiam acontecer. Como nós, humanos, somos geralmente bem adaptados às nossas circunstâncias desde o clima global ao clima político -, qualquer mudança vai ser provavelmente perturbadora, dolorosa e dispendiosa. 

Mas nós, humanos, somos recém- chegados, pois só surgimos há uns poucos milhões de anos. A nossa presente civilização técnica tem apenas algumas centenas de anos. Não tivemos muitas experiências recentes de cooperação voluntária entre as espécies (ou até entre a mesma espécie). Somos muito inclinados ao curto prazo e quase nunca pensamos no longo prazo. Não há garantia de que seremos bastante sábios para compreender o nosso sistema ecológico fechado em todo o planeta, ou para modificar o nosso comportamento de acordo com esse entendimento. O nosso planeta é indivisível.

Será que nós mesmos serviremos de objeto para nossa própria autodestruição?

Deixo essa pergunta vaga, porque não me vem capacidade para respondê-la.

Kaka Padilha

Somos uma espécie rara e especial.

Tenho enfatizado muito o assunto ”gratidão” e ”lei da atração” em minhas escritas, porque isso é o que aplica a minha vida e minha maneira de viver, mas nem todos as pessoas pensam como eu e tem essa ”filosofia dia vida”.

Já dei vários exemplos de como gratidão, de como ser positivo mesmo nos momentos mais difíceis melhoram nossa vida.

Mas hoje, venho aqui convida-los a fazer um exercício de se auto-julgar, e achar uma coisa boa em que você acredite e que seja boa e seguir isso como sua filosofia de vida.

Para alguns ele assunto de lei da atração, não passa de mera ladainha, por este motivo te convido a parar por um momento, pensar em sua vida, suas atitudes, pensar se existe uma coisa que você acredite e torna isso como suporte para viver a vida, afinal não é nada fácil, não é mesmo?

Nós somos uma espécie em que estamos em constante evolução, somos capazes de qualquer coisa,

”Somos raros e preciosos porque estamos vivos, porque podemos pensar dentro de nossas possibilidades. Temos o privilégio de influenciar e talvez controlar o nosso futuro. Acredito que temos a obrigação de lutar pela vida na Terra – não apenas por nós mesmos, mas por todos aqueles, humanos e de outras espécies, que vieram antes de nós e a quem devemos favores, e por todos aqueles que, se formos inteligentes, virão depois de nós. Não há nenhuma causa mais urgente, nenhuma tarefa mais apropriada do que proteger o futuro de nossa espécie. Quase todos os nossos problemas são provocados pêlos humanos e podem ser resolvidos pêlos humanos. Nenhuma convenção social, nenhum sistema político, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante. 

No fundo, cada um experimenta ao menos um conjunto vago de ansiedades variadas. Elas quase nunca desaparecem de todo. A maioria delas diz respeito, é claro, à nossa vida cotidiana. Há um claro valor de sobrevivência nesse zumbido de lembretes sussurrados recordações atemorizadoras de passos em falso no passado, testes mentais de possíveis respostas a problemas iminentes. Para muitos de nós, a ansiedade diz respeito a ter o suficiente para dar de comer aos filhos. A ansiedade é uma daquelas soluções de compromisso evolucionárias otimizada para que haja uma próxima geração, mas dolorosa para a geração atual. O truque, se conseguimos realizá-lo, é ficar com as ansiedades certas. Em algum ponto entre os bobalhões alegres e os pessimistas nervosos, há um estado de espírito que devemos adotar.

À exceção dos milenaristas de várias seitas e dos tabloides, o único grupo de pessoas que parece se preocupar rotineiramente com as novas previsões de desastres – catástrofes ainda não vistas em toda a história escrita de nossa espécie – são os cientistas. Eles chegam a compreender como é o mundo, e ocorre-lhes que ele poderia ser diferente. Um pequeno empurrão aqui, um pequeno puxão ali, e grandes mudanças poderiam acontecer. Como nós, humanos, somos geralmente bem adaptados às nossas circunstâncias desde o clima global ao clima político -, qualquer mudança vai ser provavelmente perturbadora, dolorosa e dispendiosa.

Mas alguns dos alegados perigos parecem tão sérios que surge espontaneamente o pensamento de que talvez fosse prudente levar a sério até a pequena possibilidade de um perigo muito grave. As ansiedades da vida cotidiana funcionam de forma semelhante. 

Compramos apólices de seguro e avisamos as crianças sobre o perigo de falar com estranhos. Apesar de todas as ansiedades, às vezes não percebemos os perigos de forma alguma: “Todos os meus motivos de preocupação nunca se concretizaram. As coisas ruins me caíram do céu”, disse um conhecido à minha esposa, Annie, e a mim.

Quanto pior a catástrofe, mais difícil é manter o equilíbrio. Queremos muito ignorá-la por completo ou empregar todos os nossos recursos para contorná-la. É difícil considerar sobriamente as nossas circunstâncias e deixar de lado por um momento as ansiedades associadas. Muito parece estar em jogo. 

Se os humanos criam problemas. os humanos podem encontrar soluções. O que espero é que  ao ler este texto, o leitor se sinta provocado a pensar um pouco mais sobre o futuro. 

Não quero acrescentar desnecessariamente novos elementos à nossa carga de ansiedades – quase todos nós já temos uma carga suficiente -, mas há algumas questões que, a meu ver, não estão sendo examinadas por um número suficiente de pessoas. O ato de pensar sobre as consequências futuras das ações presentes tem uma linhagem orgulhosa entre nós, primatas, sendo um dos segredos do que ainda é, de modo geral, a história espantosamente bem-sucedida dos humanos sobre a Terra”. – Trecho tirado do livro “Bilhões e Bilhões ‘, Carl Sagan.

Kaka Padilha

Nós somos, cada um de nós, um pequeno universo.

O lado mais brilhante é que todos nós temos a oportunidade de re-lembrar e re-conectar a nós mesmos e ao universo em geral. O poder da lembrança está no centro do caminho espiritual de auto-descoberta e realização. Tudo no universo esta dentro de você, você é sua própria janela para a imensidão .

Nós somos uma forma do universo se auto-conhecer. Nós falamos pela terra, somos o universo se expressando como humano por um pequeno tempo.

Nós somos, cada um de nós, um pequeno universo. Um assunto abordado com frequência por Carl Sagan era a dimensão das coisas muito pequenas, como aquelas que compõem nossos corpos. Ele frequentemente colocava o minúsculo em escala com o gigantesco, equiparando, por exemplo, a quantidade de átomos em uma molécula de DNA com a de estrelas em uma galáxia típica. É uma forma elegante de demonstrar como somos muito pequenos e muito grandes ao mesmo tempo. Em uma outra comparação do gênero, dizia que existem mais estrelas no Universo do que grãos de areia em todas as praias da Terra.

Desse ponto de vista distante, a Terra não pode parecer de qualquer interesse particular. Mas, para nós, é diferente. Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós.

 Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “lidere supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de um outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. 

Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo, eles pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria auto-importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um pontinho solitário na grande e envolvente escuridão cósmica.

Em nossa obscuridade – em toda essa vastidão – não há nenhum indício de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não ha lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos… o pálido ponto azul,  o único lar que eu já conheci. ” Carl Sagan

 

Carl sagan : Contato

O grande destaque de Contato é que a especulação tem uma profunda base científica. Carl Sagan apresenta conceitos de radioastronomia e o potencial dessa área da Astronomia para procurar vida inteligente em outros sistemas estelares. Esse é o tema científico cental da obra, mas Sagan também explorou muito sobre o relacionamento humano.

A personagem principal é Ellie. Sua história é contada desde a infância, quando menina mostrava enorme interesse nas questões do Cosmos. Seu pai a incentivava nesse interesse, e como resultado ela era uma criança bem diferente das outras. Sua vida pessoal muda quando o pai morre e a mãe casa-se com um homem machista. Apesar dos obstáculos impostos pelo seu padrasto, que a desmotivava muito com seu discurso machista, Ellie conseguiu entrar na faculdade, tornou-se uma importante pesquisadora na área de radioastronomia e especializou-se na busca de vida inteligente.

Sagan descreve toda trajetória acadêmica de Ellie. Então quem é da academia certamente vai se identificar em muitos momentos. Sagan é sensível e fala da dificuldade que Ellie tem de se encaixar, fala dos rapazes da academia que não sabem se relacionar bem. Ela acaba inclusive namorando um músico, provavelmente porque todos os seus colegas da academia não sabem flertar e não são interessantes para um relacionamento amoroso. Adoro essa parte do livro, pois é uma “virada de mesa” nas questões de relacionamento.

A trajetória de Ellie é contada desde a graduação até quando se torna diretora de um importante centro de pesquisas. Quando um sinal anômalo é recebido pelos radiotelescópios, Ellie acaba liderando uma equipe para monitorá-lo e decifra-lo. E aí entram as questõres relacionadas com opinião pública (muita gente acha que muito dinheiro está sendo gasto) e com interesses políticos e estratégicos, já que na obra, o mundo continua polarizado (URSS x EUA).

Ellie acaba se relacionando com políticos, tendo contato com pesquisadores do mundo todo em congressos (Sagan descreve os congressos científicos com muita fidelidade). Ao longo das discussões, fundamentalistas religiosos se envolvem no assunto e reinvidicam o direito de saber o que está acontecendo. O livro faz um interessante debate de Ciência x Religião, revelando que a oratória e o discurso de um líder religioso pode ser muito mais sedutor do que o discurso científico (e como sabemos disso, infelizmente). Só que Sagan não é Dawkins: ponderado, na obra é possível perceber que ele dá uma importância a experiência religiosa e diria que isso tem tudo a ver com a experiência queé o ápice da história.

O livro foi adaptado para o cinema em 1997, com Jodie Foster no papel principal. Dirigido por Robert Zemeckis, conta também com Matthew MaConaughey (de Interstellar).  A propósito, Interstellar tem muito de Contato: possui uma base científica, mas também apela para o sentimental e fantástico.

Blue Dot

” Look again at that dot. That’s here. That’s home. That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every “superstar,” every “supreme leader,” every saint and sinner in the history of our species lived there–on a mote of dust suspended in a sunbeam…” Pale blue dot 🌍✨We’re all connected

Nick Sagan : Memories Of My Dad

When I look around the blogosphere I see so many beautiful memories of my father. I’ve been spending all day reading what he meant to people, the ways in which he inspired them to learn about science and critical thinking, or compelled them to go on a voyage of discovery about the universe. It’s deeply moving, and I’ll forever be grateful. For my blog entry, I won’t tell you about his many scientific achievements or about all the good he did for this world–there are others who are blogging about this far more eloquently than I ever could. Instead, I’m going to share dad memories with you. He was many things to many people, but he was my dad and I want you to know the man I knew.

He had a knack for pinball, knowing just how hard to bump a machine without tilting it. We’d go to arcades together and he’d win bonus games like mad. Videogames were never his thing, though he could appreciate the better ones. I remember the day I showed him Computer Baseball, a strategy game for the Apple IIe. You could pit some of the greatest teams in MLB history against each other. We played Babe Ruth’s 1927 Yankees against Jackie Robinson’s 1955 Dodgers for about an hour, and then he turned to me and said, “Never show this to me again. I like it too much, and I don’t want to lose time.”

Often he’d be invited to speak at an event, and I remember sitting with him, watching him gather his thoughts in the quiet moments before he’d take the stage. He’d make tiny notes on an index card. Just a word or two about each point he wanted to make. And armed with these notes, he’d go up and captivate the audience. Never a boring moment, never a time when he’d lose his place or go off track. As a child I’d sometimes think of him as a translator or a code breaker. How else could he turn those mere fragments into such amazing and inspiring ideas?

He was never without a dictaphone. Vividly, I remember those small black tape recorders with their bright red record buttons. We could be walking or talking and an interesting thought would come to him. He’d excuse himself, hold up an index finger to say he’d be just a minute, reach for the dictaphone, and then lay out his idea. Now I’m a writer and I use dictaphones, too. When I use them, my words usually come together like this: “Okay, for the book, I think it might be really cool if so-and-so does this instead of that…” And later on I’ll work that idea into what I’m writing. By contrast, I remember my dad would speak in long, flowing, perfect paragraphs. He’d say it just right and it would go straight into the book. Sometimes he’d have a thought, speak a paragraph or two for one book, and this would in turn inspire a thought for a separate project, so he’d reach for another dictaphone, and so on. He always knew how to make the most out of the times inspiration would strike.

You probably already know this, but he was fantastic in a debate. He could take William F. Buckley’s arguments apart, and as a kid I quickly found that my “Why you should buy me a cool dirt bike” arguments weren’t nearly as good as Buckley’s. But he always listened. He always gave me credit for making valid points. And eventually I did find myself biking around Ithaca.

He was deeply supportive of me. Even in the times where I worried him–dropping out of high school, for example–his belief in me never wavered. I remember him looking out for me. At the same time, he was adamant about not helping me too much. He didn’t want to spoil me, and he wanted to make sure I could achieve my goals on my own without even a hint of nepotism. When I look back, I have tremendous respect for how he did this.

He had a genuine interest in people. I hear many conversations today where someone asks about another person, but it’s just a courtesy–they’re not really interested in the answer. This was never my father. He was always curious to know what things were like for his fellow man. In Manhattan, we could get into a cab, and maybe the driver would recognize him and maybe not, but my dad would start up a conversation and they’d get into really interesting discussions about the course of human events. The driver could hail from anywhere in the world, and Dad would know a lot about what was happening there. I remember thinking he knew more about Ghana than most Americans knew about America. And what he didn’t know he wanted to find out.

I remember arguing with him about The Simpsons and Beavis and Butthead. Both shows made a bad first impression on him. I persuaded him to give The Simpsons another chance, and he eventually saw what all the fuss was about. He grew to genuinely enjoy the show. I don’t think I ever won him over on Beavis and Butthead though. “They’re not meant to be role models,” I remember protesting. “It’s a subversive critique.” Nope, not his cup of tea. I can only guess what he’d have made of Family Guy or South Park. We also went back and forth on violence in the media. I argued that edgy films and TV shows were just a reflection of our society, and were not contributing to real life violence. He wasn’t so sure. We went round and round on this many times. A really good, spirited disagreement, where each of our positions would evolve from what the other would say. I miss those times. Now that I think about it, that’s part of the reason why I enjoyed the IS ART THE INSPIRATION FOR MADNESS? panel back at Worldcon so much–exploring those same questions with Joe Haldeman and Tim Powers stirred up great memories of my dad.

He had incredible patience. His fans would constantly come up to him to ask him questions, to ask for an autograph, or to ask to take a picture with him. Sometimes this would happen at an inopportune time–if we were out to dinner, enjoying a conversation, for example–but I don’t remember him ever treating anyone disrespectfully. As a small child, he had such passion for science–he wanted to know why things were the way they were–and he held on to that passion his entire life. This made him deeply sympathetic to anyone interested in learning. They were kindred spirits, and he wanted to share all the joys and wonders of the cosmos he’d come to understand.

We loved basketball. We’d watch NBA games whenever possible, wondering if this would be the year Patrick Ewing would lead the Knicks to the championship. And always the answer would be no. He’d point out the coaches and tell me what they were like as players back in the years before I was born. When a visiting player went up to take a foul shot, the home team fans would make noise and wave towels trying to distract him, and dad never liked that. I remember saying it gives teams an incentive to win home court advantage, but he objected on principle–he didn’t think it was sporting. There’s something so decent about that. And I remember my mother getting increasingly upset because she wanted me to go to bed, but dad and I were watching a game and he’d promised I could stay up until the end. Overtime. Then double overtime. Then triple overtime. Man, what a game. (Game 5, Celtics-Suns, 1976 NBA Finals.)

He did not like the movie Aliens. I thought it was fun, scary, cathartic; he thought it was needlessly violent and why must extraterrestrials be portrayed in such a negative light? He had mixed feelings about Star Wars. I remember watching it with him, and when we reached the part where Han Solo brags that the Millennium Falcon made the Kessel Run in “less than twelve parsecs,” he made an exasperated sound. I asked him what was wrong, and he explained that a parsec is a unit of distance, not time. I said, “Dad, it’s just a movie.” He said, “Yes, but they can afford to get the science right.” And I thought, yes. He’s absolutely right. (What movies did he like? He was a big fan of David Lean epics like “Dr. Zhivago” and, especially, “Lawrence of Arabia.” I remember how he loved that transition where Peter O’Toole blows out the match and we cut quite suddenly to the Nafud desert. It’s such a powerful moment.)

He’d make very interesting noises. His laugh was explosive and uninhibited. It was the kind of laugh that made you feel good for making him laugh. His sneezes were booming. And sometimes he’d talk to animals in their native tongue. The times we’d see dolphins, he’d greet them in a reasonable approximation of dolphin speak. They’d often answer him. I have no idea what was said. But my favorite sound of his was the sound he’d make upon discovering something interesting and new, some idea or possibility that impressed him or opened up a fresh way of looking at things. It was a kind of “aaah.” One of my proudest moments: We were watching my first Star Trek episode, “Attached,” and within minutes he’d made the sound, turning to me with a beaming smile and saying, “That’s really good.” And this continued for the entire show. The completeness of how much he loved what I’d done, that genuine sense of enjoyment stays with me, a sense of respect and approval I treasure like nothing else.

He drove an orange Porsche 914 with the license plate, “PHOBOS.” Named after one of the moons of Mars. I never asked him, “Why Phobos? Why not the other moon, Deimos?” though I wish I had. As a child I was fascinated by Greek mythology and knew Phobos as a demigod of fear. It’s ironic because my father was the least fearful person I’ve ever known. Though he worried about the state of the world from time to time, it never stopped him. And when we’d talk about what things might be like in twenty-five, fifty or a hundred years, he said he knew there would be difficult challenges ahead, but he believed we were up to the task. He believed in human ingenuity and compassion, in thinking long-term instead of short, in putting our many differences and superstitions aside. He believed in a better tomorrow. He believed in us.

Conheça a mulher por trás da série Cosmos Ann Druyan, criadora da nova série Cosmos e viúva de Carl Sagan, fala sobre ciência, religião e o homem que está recebendo os créditos pelo seu trabalho

Após o fim da nova série Cosmos, disponível agora em Blu-ray e DVD, se tiver perdido o show, o seu apresentador, Neil deGrasse Tyson, tornou-se o mais proeminente astrofísico nos Estados Unidos e o rosto da ciência para o público no seu esforço de recapturar a imaginação das pessoas. Mas apesar de Tyson ser um autor com seu próprio mérito, ele não concebeu, escreveu ou produziu a série. Na verdade, ele foi como um ator ou um âncora de telejornal, uma figura carismática e credível lendo as palavras de outra pessoa no teleprompter. Essas palavras, e quase tudo na série, foram escritas por Ann Druyan, escritora e produtora executiva que também foi cocriadora da série original com seu marido Carl Sagan, há mais de 30 anos.

Druyan não busca pessoalmente os holofotes e não é uma celebridade, mas do seu jeito ela é uma figura cultural chave na luta contra o popular antagonismo à ciência e a disseminação de besteiras anticientíficas sobre as mudanças climáticas e a teoria da Evolução. Os criacionistas e antievolucionistas que entenderam os argumentos de Cosmos como um ataque direto a suas crenças pessoais estavam inteiramente corretos. Mas a crítica de Ann Druyan vai muito além das interpretações literais e das idiotices da turma do Answers em Genesis.  Ela se descreve como agnóstica em vez de ateia, baseada na premissa de que a ciência não deve se pronunciar sobre questões que não pode responder, mas ela descreve a fé religiosa como “contrária aos valores da ciência” e a religião em geral como “uma declaração de desprezo pela natureza e pela realidade.”

Druyan também está ciente de que muitos religiosos rejeitariam suas opiniões, e um fragmento de suas ideias pode fazer sua abordagem filosófica soar menos generosa e “mente aberta” do que ela é de fato. Enquanto ela está profundamente desconfortável com o muro artificial entre os domínios da ciência e religião erguidos por Stephen Jay Gould que diz que eles “são magistérios que não se sobrepõem”, ela está aberta a discussões de conceitos aparentemente indefiníveis e não científicos, como o sagrado e o espiritual. Esses devem ser buscados em um nível mais profundo e mais evoluído, argumenta, deixando para trás “nosso senso infantil de centralidade no universo”, em que somos a prole preciosa de um protetor benevolente, em vez de nos focarmos nos mistérios imensos e profundos de “13 bilhões de anos de evolução cósmica e 4,5 bilhões de anos da história da vida neste planeta.”

Durante minhas conversas breves pelo telefone com Druyan, nós também discutimos sobre a sua brilhante releitura da história do Jardim do Éden, que ela entende como uma história de fuga humana de “uma prisão de segurança máxima com vigilância 24 horas por dia.” O pecado capital de Adão e Eva é que eles buscaram conhecimento e fizeram perguntas, exatamente as qualidades que definem a espécie humana. Ao menos nessa história, Deus aparece e exige uma falta de curiosidade subserviente e doutrinária, e muitos de seus seguidores continuam a insistir nesse caminho para os dias de hoje. Certamente há correntes dentro das principais tradições religiosas que resistem em uma simplória negação da ciência – Budismo, Judaísmo e a Igreja Católica estão agora bem, falando de modo genérico, com a Evolução e a cosmologia – mas a crítica provocativa de Druyan da religião como força social que distorce as coisas vale a pena considerar, ainda que você ache seus argumentos muito radicais.

Um erro que Druyan nunca comete, mesmo em Cosmos ou em qualquer lugar, é o historicismo arrogante às vezes demonstrado por Richard Dawkins e outros proeminentes ateus científicos. Com isso quero dizer uma concepção quase religiosa de que nós estamos em uma posição unicamente privilegiada e próxima de um conhecimento científico perfeito, com apenas algumas lacunas para preencher antes de entendermos tudo sobre o universo. “Estou certa de que a maior parte do que temos de mais valioso, daquilo que acreditamos neste exato momento, será revelada em algum tempo futuro como algo que é meramente um produto da nossa época, da nossa história e da nossa compreensão da realidade”, diz Ann Druyan. É a ciência como entendida como um processo, como “uma busca incessante pela verdade”, é algo sagrado. O que nós sabemos agora, ou o que achamos que sabemos, é sempre passível de humildade e dúvida.

Ann, eu sei que eu não sou a primeira pessoa a trazer essa questão à tona, mas você fez duas versões dessa série onde, entende, um cientista proeminente apresentava e você ficava lá nos bastidores. A primeira vez, claro, foi com seu esposo e agora o mesmo ocorre com Neil Tyson, pois ele está de pé em frente à câmera e todos pensam que ele é o criador da série. O que está acontecendo?

Essa é uma coisa engraçada, não? Eu fico um pouquinho surpresa quando os críticos, que são os mais prováveis de ler os créditos com atenção, falarem sobre a série como se Neil tivesse algo a ver com o começo ou com a sua escrita. No caso do Carl era diferente. Obviamente ele era o principal parceiro na concepção do projeto junto comigo e o astrônomo Steven Soter.Com isso quero dizer que estou meio surpresa. Mas então eu vejo a performance magnífica do Neil e como ele inesperadamente pegou o que eu escrevi e foi dando o seu melhor na expressividade da série. Eu amo esse cara.  Eu acho que é a condição do roteirista, ele fala com a boca de outra pessoa, por isso as pessoas pensam que deve ser ele falando. É uma reação natural.

Mesmo assim é uma coisa engraçada. Quero dizer, sou um crítico de cinema e eu não acho que as pessoas ficam confusas quando elas vão ver um filme e Johnny Depp está lá em interpretando um personagem. Eles praticamente entendem que alguém escreveu essas falas para ele, mas não parecem entender isso nesse caso.

Não entendem, sabe, porque Neil é um cientista e também um escritor. Então é natural se pensar que é o seu material. E, claro, isso é verdade para o Carl em um grau maior. Tudo isso faz sentido. Estou feliz. Quer dizer, veja só, não consigo acreditar que essa série foi exibida em mais ou menos 181 países e na maioria deles tivemos um sucesso maior do que o esperado. Para alguém que começou nessa estrada há 7 anos, essa é a maior proeza que eu poderia ter imaginado.

Como você se sentiu sobre a resistência de grupos religiosos? Você foi muito clara sobre abraçar o consenso científico de que as mudanças climáticas são o resultado da atividade humana, que a evolução por seleção natural é um fato e que a idade do universo não está em disputa. Tenho certeza de que você estava esperando alguma resistência a tudo isso.

Na verdade, a brandura relativa da reação que realmente me surpreendeu. Eu pensei, sabe, que abordar a origem humana do aquecimento global ou até mesmo a evolução através da seleção natural e dizê-lo de modo tão aberto resultaria em uma enorme rejeição. Mas não chegou a isso. Eu acho que eu já esperava, por nunca ter trabalhado com a Fox e a National Geographic, quando enviei meu script que o vice-presidente da Standards & Practices ou quem quer que fosse retornaria com algumas questões. E, no entanto, foi exatamente o oposto. Foram, sabe, cartas dizendo: “Eu não posso esperar para ver esse show na televisão. Obrigado! “Assim, creio que a vida é raramente o que esperamos que ela seja.
As coisas para as quais eu já estava me preparando não aconteceram. Quero dizer, entende, a reações negativas às ideias científicas que estão no coração das séries foram realmente diferentes e muito amenas. Tenho que ser honesta. Eu li um monte de coisas daquelas fontes de onde poderia antecipar qual seria a reação. E foi o eu fiz. Parecia que era mais tristeza do que de raiva. [Risos.] Eu não vi nada, pessoalmente, que fosse perturbador. Na maior parte, eram apenas pessoas que não concordavam.

Você foi muito sincera ao longo dos anos sobre suas visões sobre mitos religiosos e suas relações com a ciência. Você falou em tempos do desejo de recuperar um pouco da sensação de mistério e ousadia ou até mesmo de espiritualidade que poderiam hipoteticamente ser relacionados com a ciência. Esta série deve ser considerada como parte dessa luta, como uma tentativa de recapturar o mistério e o poder da ciência na imaginação do público?

Isso está maravilhosamente colocado. Eu poderia falar sobre nisso. Sim, quero dizer, o que sempre foi uma surpresa para mim, pessoalmente, é que as revelações da natureza e o universo que a ciência nos apresentou não são apenas, entende, mais prováveis de serem melhores aproximações da realidade do que as obtidas de qualquer outra fonte, mas elas também são muito mais espiritualmente satisfatórias do que qualquer coisa que já fomos capazes de inventar. As nossas interpretações da natureza que não estão enraizadas em nós são uma espécie de visões idealizadas infantis de nós como o centro do universo. Como filhos de um pai muito decepcionado. [Risos.]

Essas coisas só me deixam fria. Sinto muito; Não fazem realmente nada em mim. Mas a ideia que nós somos, a meu ver, uma espécie em uma busca de uma satisfação é algo muito real. E nós usamos isso para chegar à teoria de somos literalmente especiais, que fomos criados separados de toda a natureza. Não podemos pensar mais assim depois de entender uma montanha de evidências do DNA e muitas outras causalidades independentes, que parecem criar a nossa unidade com toda a vida. Acho que estamos sendo corajosos. Nós estamos olhando para a realidade como ela realmente é, estamos a sendo corajosos o bastante e adultos o suficiente para saber o quão pequenos nós realmente somos. “Cosmos”, no original e nesta nova série, pretende ensinar e familiarizar o maior público possível com algumas das ideias e métodos da ciência e com alguns de seus heróis, mas também para que você sinta o que a ciência está nos dizendo. Pessoalmente, acho que isso é importante. Estamos abraçando estes desafios que só podem ser resolvidos pela ciência. Nós estamos olhando para o universo e tentando compreender como ele funciona e você não pode fazer isso sem a ciência. Há apenas uma maneira para ver isso.

Talvez, esse é um assunto muito amplo para uma conversa por telefone, mas você pessoalmente parece não sentir qualquer necessidade por uma espécie de, não sei, consolação ou necessidade mística que os mitos e a religião tradicionalmente fornecem. Você não entende essa necessidade ou é por que você considera que a ciência pode prover o mesmo sentido de amplitude e mistério, o mesmo espaço para se perguntar sobre assuntos que podem não ter resposta.

Isso mesmo. E veja que eu não tenho problema em fazer perguntas irrespondíveis ou fazer perguntas ainda sem respostas. Não tenho problema com elas e certamente com passar noites escuras da alma para respondê-las. Nunca presumiria dizer a ninguém como respondê-las para eles mesmos, nem mesmo para minhas próprias crianças. Nem mesmo pensaria nisso. Posso falar só por mim mesma quando digo “Sim, faça perguntas, quanto mais, melhor.” se você chegar com respostas que não fazem ajustes à escala de tempo e espaço que nos encontramos, isso é a mais pura falta de imaginação. Mas, sabe, em termos de fazer essas perguntas, sim, eu acho que é a origem de muito do que nós como seres humanos somos capazes de fazer.

Hum, acho que as pessoas ainda olham  a religião como uma zona de certas questões que a ciência não tem como abordar. Sabe, o universo tem algum padrão ou sentido, mesmo que não possamos discerni-lo?  Por que há algo em vez de nada?

Oh, sim. Sim, isso é Leibniz. Essa é a sua pergunta favorita. Em “Variedades da Experiência Científica” [um livro de memórias coescrito por Druyan e Sagan], na introdução escrevi sobre isso no contexto de uma nota que eu achei e que tinha a letra do Carl. Ele pegou aquele parágrafo [de Leibniz], resumiu-o e, em seguida, escreveu algo nas margens. Leibniz continua a dizer, e estou parafraseando, “O que aconteceria se não parássemos de fazer perguntas? Onde iríamos parar? Teríamos que dizer Deus, porque esse é o único lugar que poderíamos parar de fazer perguntas. “

Então Carl escreveu, em sua bela caligrafia de escola pública do Brooklyn: “Então, não pare.” Achei isso depois de sua morte e foi como ouvir a voz dele. E eu não poderia concordar mais. Por que Deus está me dizendo para parar de fazer perguntas? Quando desafiamos Deus ao provar do fruto da Árvore do Conhecimento é assim que nos tornamos nós mesmos. Você sabe, Deus pode não gostar desse nosso lado, mas eu sim.

Você escreveu muito sobre a desconfiança pública da ciência ou da alienação científica. Mas, certamente, você deve entender muito bem. Eu li sua exegese brilhante sobre o Jardim do Éden como uma prisão totalitária com vigilância 24 horas por dia, que é na verdade um paralelo com os filósofos alemães Max Horkheimer e Theodor Adorno. Seus temas são a relação entre mito e esclarecimento, e eles veem a história como uma parábola irônica que expõe os perigos de ambos. Mas eles estavam escrevendo no final de 1940, no despertar do Holocausto e do bombardeio de Hiroshima. Então, o lado negativo da tradição iluminista, que produziu a ciência moderna, era bastante óbvio.

Claro. Olha, em cada episódio de Cosmos nós fomos muito insistentes sobre a colocação de cada aspecto da ciência fora de seu escrutínio, é claro. Você vê a explosão da bomba Tsar [em 1961], que foi a maior explosão termonuclear na superfície da Terra. A ciência conhece o pecado? Com toda certeza. Temos usado para o mal tudo que temos ao nosso dispor.

Como tudo que temos, a ciência conheceu o pecado. Com isso quero dizer que há um empreendimento humano sequer que não esteja cheio de erros e crimes. Nós carregaremos essa bagagem evolutiva conosco onde quer que formos. Carl sempre usou isso para dizer que a questão é quais dessas tendências que temos – a tendência para educar, colaborar, compartilhar ou a tendência de dominar – é mais provável de vencer. Nós realmente queremos usar a tecnologia para a crueldade? Tudo depende de qual tipo de sociedade nós vivemos: uma que realmente tenta efetivar a cooperação ou uma que quer dar a maior recompensa? Essa parte depende de nós; temos a capacidade de otimizar isso ou aquilo. E, me entende, essa é a verdadeira questão de tudo isso: qual parte de nós vencerá?

Por Peter Ferrer